áfrica tua

não jantámos os teus picantes porque conheces a minha mania saudável de comer e, embora me tentes (ainda, como quando era pequena) mimar com os teus sabores africanos e os teus doces exóticos dos quais me ensinaste a gostar, sabes que me controlo hoje mais do que ontem. e já lá vão 20 anos desde ontem, querida avó do coração.

quando me fizeste sentar ao teu lado e me pediste que apreciasse a tua última compra - um computador onde até vais mexendo mas que gostavas (eu sei) que te desse uma mão maior (não te falo no tempo porque o teu tempo para mim sempre foi tanto que me dói a injustiça de te dizer hoje que me faltam minutos para ti); apeteceu-me, na verdade, abraçar-te. pelos teus 80 anos de boa disposição e positivismo, de uma sensibilidade e bondade extremas a tudo e por todos, e por esse brilho fantástico de menina que conservas no teu olhar maroto, gozão e sincero, como só tu sabes ser na tua genuinidade. e entendemo-nos tão bem nesse modo ligeiro de levar a vida - embora às vezes eu seja pesada nas decisões, eu sei.

disseste-me assim:

faz-me tanto lembrar áfrica... - e, embora não tenhas sentido, estas palavras também me pesaram. 

referiaste, na verdade, à imagem de fundo do ecrã. e continuaste:

escolhi esta por me lembrar áfrica.

perguntei-te, porque tive a feliz oportunidade de já ter pisado as terras de que guardas tanta memória e tão boa saudade:

é a cor do céu, não é avó? aquele tom avermelhado...

é, querida.

e continuámos a nossa conversa. nesse mesmo instante lembrei-me de há uns anos atrás a minha mãe me ter contado que, também em áfrica, por ocasião de ter viajado para o continente para acompanhar o meu avô em trabalho, se havia avariado o carro do então chauffer e que ela saltara imediatamente para fora do carro, pronta a ajudá-lo, mas foi interpelada por ele ao vê-la arregaçar as mangas do vestido: 'a menina não faça isso, vai sujar as mãos!'. e a minha mãe que não era tua filha mas que tinha por ti um amor sincero e correspondido na mesma medida, sorriu e prosseguiu: 'avariou comigo cá dentro, trato do assunto também'. rimo-nos na altura do episódio, mas sei que a mensagem que ela me quis passar foi, entre outras, a certeza de que é preciso fazer para ser feito, e ajudar para se ser ajudado. mais ou menos aquilo que me ensinas todos os dias de cada vez que falamos. 

esta não será certamente a melhor fotografia de áfrica (em cima). não tem o teu céu vermelho nem a estrada avariada da minha mãe, mas tem o sabor de um chá depois de um banho relaxante pós 8 horas de um voo extenuante para Johannesburg - voei tanto para lá que se fechar os olhos sou capaz de sentir ainda o quente do ar por si só irrespirável na transição de dentro para fora, entre portas do hotel.

esse chá traz-me a ti e traz-me ela à memória. e uma série de coisas que não vêm a propósito agora, mas que me fazem pensar que a tua áfrica é grande, e a paixão pelo continente pode ser medida em frames diversos. em anos distintos e em episódios mais ou menos complexos. 

felizes dos que constroem memórias destas, avó.