sobre dançar

... e sobre a possibilidade de preferirmos mantermo-nos de pé, a um canto, achando que afinal não devemos, não faz sentido, já não conhecemos os passos, se calhar vamos cambalear por não serem suficientemente firmes, se calhar desaprendemos, se calhar a vontade não é assim tão grande (será que foi? e se foi em que dia é que decidiu ir-se embora?). a possibilidade da vida nos permitir avançar ao ritmo de sons que nos dão alguma segurança, ou nos deixam cheios de dúvidas, reflete a nossa capacidade de decidir. podemos decidir não ir, ficando, e podemos preferir ficar, avançando em passos pequenos, dançantes (esvoaçantes?), incertos, tímidos, até desconcertantes. em todo o caso, entre ficar sentado e bater o pé, penso sempre que o pé foi feito para andar, e se o objetivo não fosse que marchássemos então teríamos barbatanas para seguir ao de leve o circuito das águas, embalados por ela (que é tão bom, mas tão fácil), invés de pernas que nos impelem de contornar esquinas e saltar buracos, correr ao infinito. ficar simplesmente sentado, evitando a dança, não é qualidade de um pé que se preze.

diria que devem escolher dançar sempre. mas se um dia perceberem que estão na estória errada, a dança deixa de fazer sentido, e então corram até ao infinito e mantenham-se por aí. há mais músicas nesta vida. e outras danças também.  

imagem: pinterest