A Alda e o saxofonista

Hoje conheci a Alda (li-lhe o nome no cartão). E ‘apaixonei-me’ por um saxofonista negro que tocava junto à janela do ‘Vitaminas Chiado’. Passo a explicar: a Alda é taxista e, entre o percurso que fiz do meu local de trabalho a um atelier durante a manhã, percebi-a demasiado simpática para desperdiçar alguns minutos de conversa (e eu puxei um bocadinho por ela); o saxofonista tocou blues enquanto eu almoçava e lia a SÁBADO (passo a publicidade), e inevitavelmente trouxe-me à memória Nova Iorque e os bares de Greenwich Village (que saudades!). Comoveu-me sabê-lo mudo (ou será que fingia?!), quando lhe coloquei uma moeda (valente que era!) no chapéu.

A Alda fez-me pensar noutros tempos. Contou-me que tinha começado a sua carreira numa antiga loja da baixa lisboeta: ’Os Dezassete’. 17 sócios e 17 secções.

Que a loja abriu pouco depois do 25 de Abril de 1974, com as mulheres dos donos que estavam em casa a costurar e a tomar conta das crianças, mas que, num movimento de emancipação, decidiram sair e juntar-se a eles. Um ano depois, o lucro permitiu-lhes contratar empregadas e a Alda foi uma das 50.

Agora, vão-se reunindo em almoços e jantares anuais. O primeiro foi a Alda que organizou: percorreu com o seu táxi os 49 postos de trabalho das 49 amigas que fez na loja (tinham perdido os números de telefone; restava o facto de só a Alda saber onde todas trabalhavam; não se importou com a tarefa).

Quando terminou a mega ronda lisboeta, tinha confirmações de todas. O mérito foi seu, mas o que a deixou mais feliz foi a possibilidade de manter viva a amizade.

Isso, acontece pouco na vida. Por ela saber disto, despedi-me com um ‘obrigada’ e ‘felicidades e que a vida lhe sorria sempre’. Ela assentiu, simpática e genuína (a genuinidade quase poderia ser tátil; é tão fácil identificá-la!). 

O negro que tocava saxofone e me fez lembrar Nova Iorque, permitiu-me ainda olhar para fora (através da janela) e observar as pessoas que passavam. Tive a confirmação que Lisboa é linda, e está cada vez mais bonita. 

As pessoas também.

Mas, lamentavelmente, continua a faltar-lhe tanto. A culpa não é nossa. É a ‘gerência’ que falha.