Da Lídia (Muñoz) achei-a um doce de miúda num texto dramático, que interpretou com toda a sua dramaticidade (do texto e dela), mas pouca força (ou pelo menos a força - revolta? - que me pareceram necessárias). Num primeiro olhar foi, aliás, esta a minha crítica. Depois sentei-me no café do teatro, tirei umas fotos - you’re already gorgeous; be happy, life is good - e pus-me a pensar. ‘Onde é que estavas quando te vi pela última vez’ é, na verdade, uma metáfora amorosa para todo o tipo de expetativa que, ao longo da vida, criamos. Estamos sempre na ‘expetativa de’, pelo que esperamos demasiado; esperamos mesmo quando julgamos o contrário. A Lídia (personagem, monólogo) espera alguém que escolheu deixá-la - a crer pelo desconsolo e pela posição corcunda (= desgaste): há já muito tempo. Esta Lídia, e o seu texto, não é percetível POR nem A todos. É preciso alguma coragem e um total desprendimento de ideias para entrar naquela sala e esperar que a jovem nos fale nos olhos, se aproxime de nós e nos peça para voltar, sentar-se ao seu lado, ouvir a mesma música que ela (a deles). Éramos três - todos curiosamente jovens, mas ainda assim tão poucos. [lamento isto, como lamento muita coisa na cultura portuguesa atualmente] Eu não sabia desta proximidade e confesso que inicialmente me senti desconfortável. Com o decorrer da peça, apeteceu-me dar-lhe um conselho de mulher para mulher (à personagem, que era também a Lídia e que somos, a dado momento, todos nós); há uma alternativa a essa espera angustiante: esqueces e segues o teu caminho. Foi aí que percebi que a Lídia (personagem) não podia ser uma mulher rancorosa nem revoltada. Era uma miúda, uma mulher, um homem, uma pessoa, alguém como nós. A espera pode trazer dor, sim, mas duvido que traga revolta. Essa fase vem depois; é resultado de aceitação, conformidade, escolha, ação, liberdade (é aqui que a força se instala). Mas é a melhor, sobretudo quando não chega nesse formato chato (a revolta não é uma coisa boa), mas num mais inteligente: a certeza de que se agiu optando e se rejeitou a inércia da espera. A Lídia (personagem), como algumas mulheres e homens, no amor e noutros aspetos da vida, só ainda não descobriu isso. Esperemos que não leve trinta anos, como escreveu, em 2011, Helena Sacadura Cabral, num texto (http://hsacaduracabral.blogspot.pt/2011/12/trinta-anos-de-vida.html) sabedor e sincero, do qual me lembrei assim que abandonei a sala 4 do Teatro Rápido.