o mohan. e os outros (nós)

para uma mulher, limpar a casa pode ser das tarefas mais libertadoras e até tranquilizantes. sentir que se tem tudo arrumadinho e organizado, tudo a gosto, exatamente como pensámos. pronto para começar de novo. novos dias que não deixam ainda antever outras desarrumações. e o mais giro disto tudo é que partilhamos esta satisfação connosco e entre nós. mesmo quando por ela se deixam telefonemas e emails pendurados. nada melhor do que a sensação de pisar o chão do quarto acabado de limpar. ou da sala. ou da cozinha. cozinhar descalça, quem não adora?

hoje reservei parte do dia para isto. eu e o mohan. que já me falta a pachorra para o fazer sozinha. tratei do meu quarto, onde tenho os meus valores e as coisas que não gosto que mexam (não gosto mesmo). quero saber exatamente onde pus aquela revista que tem exatamente aquilo que preciso naquele momento. e não me apetece procurar. chego à conclusão que a desorganização é a maior inimiga do tempo - cada vez menos.

o mohan tratou da sala, cozinha e restante casa.

o mohan é um indiano querido de tão cabisbaixo e franzino, humilde de tão íntegro - genuinidade que a sua curvatura denuncia no primeiro contacto -, que limpa o prédio onde vivo e agora também a minha casa.

disse-lhe uma vez na confiança que a diferença linguística ainda não permite que não precisa de tratar-me por ‘madame’, e que deve abrir o peito para melhorar a postura. ‘encolher os ombros torna-te ainda mais pequeno’, acrescentei.

riu-se. disse ‘thank you madame’ e continuou nos seus pensamentos, limpando e esfregando. 

pago ao mohan sempre mais do que a minha colega de casa acredita ser necessário. 

não sei a idade do mohan mas acredito que não ultrapasse os trinta.

sei que quando a minha casa está finalmente limpa e em silêncio, me assome uma paz de espírito tão grande que me permite recuperar energias para o que vem - e é sempre tanto.

não sei o que passa pela cabeça do mohan quando termina as suas limpezas, não sei qual é o caminho que faz até chegar a casa nem sei que casa é essa. não sei as condições em que vive. mas julgo que a sua postura descreve aquilo que os meus olhos não alcançam.

e, por isso, fecho a porta sempre com a sensação de que todo o dinheiro é pouco para fazer a diferença na vida de alguém que, com a minha idade, simplesmente não pôde ser.