Sobre a participação na Europa

Não sei se é por isto que os italianos representam - ontem mais que hoje mas certamente com continuidade - uma das principais potências europeias. Mas parece-me que sim. É verdade que o país ultrapassa largamente as dimensões de Portugal - quantos ’Portogallos’ caberão na botinha? - mas também é verdade que a força (os esforços), união e identidade não devem ser medidos pelo tamanho. Em Itália existe uma forte ligação à centralidade europeia. A participação cívica - velhos, mas muito, e cada vez mais, jovens - chega a causar estranheza para quem não nasceu aqui. Portugueses, como eu. Não serve esta observação para diminuir o nosso país face a uma Itália desenvolvida. Não. Até porque não é bem assim. Vejamos algumas mariquices relacionadas com gadgets e modernidade (também sinónimo de evolução!): em Itália - certas regiões - quase não existe wi-fi. iphones é coisa rara e macbook(s) encontram-se pontualmente. Não, não estão espalhados pelos cafés nem aparecem em fotografias como decor da casa, naquele conceito de novo riquismo que, infelizmente, tanto nos carateriza. (parêntesis: também não serve esta observação para dizer de todos os que têm macbook ou iphone que são novos ricos, atenção; mas é algo que define claramente a nossa sociedade e que, aceitando-o e promovendo-o com passividade e certa dose de altruísmo, mata uma identidade coletiva face a outros gigantes. Que não só americanos). A Itália está dividida por inúmeras regiões, todas elas com Assembleias Legislativas Regionais com enfoque específico no trabalho europeu (Parlamento), e que promovem uma participação efetiva dos cidadãos nos problemas (e resoluções) tanto a nível local como europeu. Portugal é mais pequeno. Cada cidade tem a sua Câmara. Mas não soube, até ao momento - e se existir a falha é minha pelo não conhecimento ou nossa pela deficiente divulgação - de iniciativas que promovam uma networking constante entre Portugal e Conselho Europeu. Não falo de Ministros, mas cidadãos. Talvez por isso praticamente todos os italianos saibam falar francês e alemão. Quantos de nós, portugueses, o sabem? E talvez também por isso estejam claramente mais presentes e voltados para a Europa. As coisas mudaram cá. A crise sente-se. Mas a alta intervenção europeia - à parte de todos os escândalos políticos - continua a fazer deste um país grande e potencial. Que, creio, sabe (ainda e bem) defender a sua identidade. Agora compreendo (melhor) o esforço de Sócrates em trazer para Lisboa o Tratado de Lisboa. Compreendo, sem o defender. Mas acho que tudo está na base, na raiz, e não na aparência e nem no parecer bem. E Portugal tem de deixar de ser um país de ‘ficar ou parecer bem’ para, de uma vez por todas, afirmar a sua identidade e lutar por ela.

P.S - O texto é patriótico, sim. O que não me fazem três semanas a trabalhar numa organização com repercussão europeia. Isto.