Sobre os excessos

Há certas alturas que me irritam certos excessos de certos aspetos mundanos, cada vez - certamente, embora erradamente - mais atuais. Irrita-me o excesso de zelo quando podíamos ser muito mais descontraídos. O excesso dos ‘excessos’ de quem não sabe porque está, nem para onde deve ir. O excesso de se achar demasiado, e o de pensar que se sabe suficiente. Ou que já se é suficiente. É-se o que se é. E por isso, irritam-me os excessos de quem é mais do que efetivamente é. Quando não é. Porque sê-lo, somos todos, na verdade. Irritam-me os excessos do que parece, do que soa bem, do que deve ser. Os excessos precavidos que escondem receio em excesso, espontaneidade e surpresa a menos. Protocolos. Irrita-me o excesso de protocolo quando não útil; apenas entrave. Irrita-me o excesso de certezas. Certezas a mais diminuem a possibilidade da dúvida, e portanto da descoberta. Irrita-me tudo o que é demais e não comedido, assim assim, q.b, ou simplesmente ‘é’. Acho sempre que o caminho mais giro não será, certamente, o excesso da certeza, nem o excesso da dúvida, mas qualquer coisa intermédia que acontece um bocadinho por acaso. Assim, como quem não quer a coisa.