Uma possível estória - e descrição - de Lisboa

Podia contar a estória de Lisboa num único dia. Largava-me de manhã à estrada – ruas, são ruas as da capital – e ia caminhando até meio do dia. Suficiente. Poderia, por intermédio das personagens – sempre suas, embora não as reconheça com a clareza devida –, contar-vos a estória de uma Lisboa ainda querida. A estória de um casal brasileiro que se cruza comigo à porta de uma universidade que já foi minha, me pergunta pelo metro e eu decido acompanhá-los – vamos no mesmo sentido. A estória desse casal que é do nordeste, já viajou pela Europa (Lisboa incluída) mas desta vez quis ficar mais tempo em Portugal. Querem visitar o Oceanário. A estória da enfermeira que me confidencia que, ao contrário de nós, mulheres, há homens que não suportam que se lhes administre oito vacinas de uma vez, e que desmaiam. ‘Pedem uma maca e nós damos. E eles desmaiam mesmo, mas ao menos estão ali seguros e não há com o que preocupar’. E remata: ‘gostava de vê-los dar à luz…’. Eu faço-lhe a vontade e pergunto, em jeito de resposta: ‘Pois, são mesmo mariquinhas, não são?’. Ainda não acabei de dizer isto e já ela está a acenar-me com a cabeça, enquanto se ri, vitoriosa de alinharmos ideias. Sorrio também. É simpática. Podia contar-vos a estória de um casal seropositivo a quem são administrados retrovirais exatamente no mesmo local onde decorrem as consultas do viajante; e que interrompem a minha conversa com o enfermeiro ajudante para pedir ‘oh Miguel, bom dia, como está, olhe por acaso não têm aí dois pacotinhos de leite e bolachas, não?’. São dez da manhã. Percebo que não tomaram o pequeno-almoço. E que o hospital não só lhes dá os medicamentos para sobreviverem como ainda os alimenta. O enfermeiro estende-lhes a comida sob o meu olhar complacente. Prosseguimos a conversa, estranhamente mais próximos. A estória da rapariga que se cruza comigo perto do Saldanha e que oiço gritar ao telefone – a crer pela linguagem julgo que falará com outra amiga – ‘a verdade é que estou farta desta m-é-rrr-d-a; de não fazer nada, não ter para onde ir…’. E o som vai-se desvanecendo à medida que nos afastamos. Sinto que no instante em que grita, e que percebe tê-lo feito perto de mim, sente vergonha. Não sei se pelo tom da voz, se pelo que disse; mas estou mais inclinada para a segunda hipótese – um protótipo da vergonha mascarada que vai aniquilando a classe média. A estória de uma mulher, talvez com os seus quarenta anos, semelhante; enquanto aguardo, lendo, atrás de mim – e no silêncio de um Atrium quase vazio ao meio dia –, oiço-a contar ‘querida, liguei só para te avisar que vou emigrar. Angola, depois Manchester. Amanhã’. Foquei-me na revista. A estória de uma amiga que me diz ‘sabe que as coisas à distância funcionam mal’, enquanto mato saudades de um prato de bacalhau à brás (e dela). ‘vai tudo correr bem. Para si vai ser espetacular. Vá, não quero desanimá-la’. We should live one day at the time, acabo por não lhe dizer, mas sorrio-lhe. A estória de um chinês que caminha ao meu lado ao longo de toda a Avenida e que decide estalar os dedos sempre que pára diante de uma montra. E quando penso que consegui escapar-lhe, volto a ouvi-lo estalar atrás de mim. D.e.s.e.s.p.e.r.a.n.t.e. A estória de um boy (a expressão é mesmo esta), aproximadamente da minha idade, que sai da Louis Vuitton com um saco e carteira da marca (não teve tempo de fechá-la e guardá-la lá dentro), envergando nos pés uns ténis Gucci recentes. Tem estilo, é o que penso, mas podia pavonear-se menos e agir com mais naturalidade; só lhe ficava melhor (bem). Deixaria de ser um rapaz com um saco Vuitton a exibir-se pela cidade para ser simplesmente um tipo giro com uma mega compra no braço. Nada de extraordinário, tudo normal. A estória de um casal, semelhante à anterior, que estaciona o belo do mercedes topo de gama em frente aos armazéns do Chiado e arranca poucos minutos depois, mais ou menos a fundo – ou tão a fundo quanto a multidão o permite –, como quem quer deixar rasto de magia. Não é nada disso, mas um bocadinho ao lado, citando Clara Ferreira Alves: ‘… o meu país é comandado por gente sem memória nem história, uma raça de criados que não se importam de o ser desde que tenham um pequeno poder. Fatos, gravatas, dois neurónios. Chauffeur’. E um carro, que dê nas vistas, de preferência. A estória de um italiano que, no regresso a casa, se senta ao meu lado no metro, enquanto vai falando ao telemóvel. Percebo-lhe o discurso quase na totalidade e sinto saudades de poder responder-lhe (ainda que com mais ou menos esforço). E pergunto-me por que raio – e como é possível?! – que os italianos se mantenham tão desafiadoramente giros naquele jeito sem jeito; barba meio inacabada, cabelo desalinhado e camisas de xadrez a saltar-lhes pelas calças? Please, salvem-me(nos).