Vidas (duplas)

Sempre me fez um bocadinho de confusão aquele género de pessoa que é capaz de manter, por opção, em consciência e sem arrependimento, uma vida dupla. Para mim, que reconheço a transparência como um fim, e que entendo a felicidade nas pequenas coisas, é-me difícil compreender e aceitar que alguém consiga transferir com igual veracidade os sentimentos de um espaço para outro, de uma pessoa para outra. Obviamente que há momentos em que é legítimo que nos questionemos - não faria sentido de outra forma. E em que a vida - digo: o curso dos acontecimentos - se desvia do nosso controlo, assim como os sentimentos que daí advêm. É normal. É humano. É inevitável. Não é disso que falo. Refiro-me à opção consciente de viver em duplicidade (pode chamar-se assim?) por um período de tempo mais ou menos alargado - às vezes, toda a vida - e na total despreocupação com que se fere e destrói (pessoas, memórias, valores, ordens). Igual confusão me faz o facto dessas mesmas pessoas serem capazes de criar novas realidades - à medida do que lhes convém -, nas quais crêem friamente. Já não é só loucura - que o é certamente - é também alguma imoralidade resultante de uma educação deficiente. De carências afetivas, familiares, basilares. Estas pessoas morrem em vida, embora muito lentamente. Não é o corpo que acaba consumido, é o tempo que os entrega à solidão. Porque não há mal maior do que morrer socialmente excluído por falta de decência e credibilidade.